Sinto que compreendo o mundo inteiro. Solidário com qualquer dor instalada. Nada dói mais que a felicidade. Compreendo que muitas almas não queiram navegar por essas águas escuras, que escondem o maior dos perigos. O perigo de saber o que é sentir.
É muito mais fácil viver segundo as regras do mundo que é apenas a sombra de si mesmo. O mundo real, escondam-no, abandonem-no. Pois ele mostra apenas a dor. A dor do reconhecimento de nós próprios. A dor que nos rodeia por existirmos e querermos viver.
Todos têm o seu refúgio. E cada vez refugiamo-nos menos no ser humano que somos ou nas almas que encontramos.
O destino marcado, nas cartas, no papel, nos desejos de outros, na sombra do mundo real, é o destino mais indolor. Onde a altura em que nos colocamos no limbo é reduzida o suficiente para que a queda seja amortecida pela teia medianamente doce e amarga que fomos tecendo para nos alimentarmos da morte. Da nossa lenta e gradual morte.
Todos os outros limitam-se a cair. Eternamente... Revendo toda a montanha que escalaram e apercebendo-se dolorosamente de tudo aquilo que conseguiram e foram vivendo na busca do topo do arco-íris. Implorando por uma queda rápida e um choque indolor com o fundo. É uma queda longa, que parece nunca acabar. Uma dor inseparável, que nem o sol, a lua, o mar e a própria montanha consigam acalmar.
A dor de nós próprios é demasiada. Felizes aqueles que fogem para dentro das criações de alguém. Pois esses nunca irão cair verdadeiramente. Agora compreendo-os. E tento compreender a sua dor.
Filipe
30/08/2007
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